TRANSCENDÊNCIA
smorgado escreve "Transcendência é o desejo e/ou movimento de transcender, extrapolar, de ir além de.
Dentre os seres vivos somente o ser humano é capaz de transcender. Somente nele habita o desejo de ir além de si próprio.
Nenhum vegetal ou animal quer ser algo diferente de sua própria natureza. Somos os únicos que não estamos satisfeitos. Fomos ungidos com a liberdade de escolher. Podemos modificar.
Quando este desejo é mais consciente, percebemos nosso coração querendo saltar para fora do peito para alcançar, tocar, pegar esse algo intangível. O coração nos guia nessa busca.
É interessante porque é uma busca totalmente solitária. Não há respostas fora. Não há garantias. Não há segurança. Caminhamos no escuro e é a partir do passo dado que a luz vai-se fazendo e as certezas vão surgindo. Posso dizer-lhes como está sendo o meu processo, mas ninguém será capaz de dizer-lhes como será o processo de cada um de vocês. Somente vocês serão capazes de encontrar as suas respostas. Para nos aprofundarmos nesse assunto caberia aqui alguns questionamentos filosóficos. Quem é esse que transcende? O que é transcendido? Como ocorre essa transcendência? Essas são algumas perguntas que podemos nos fazer.
No entanto, não pretendo filosofar. Quero falar de algo que não dá para ser falado. Resta-nos vivenciá-lo. Consigo entender o que é dito, mas não consigo esgotar com palavras esse mistério. Posso formular perguntas, mas não posso respondê-las. No máximo descrever parcialmente minha experiência.
Tenho clareza que toda pessoa está buscando, mesmo que de maneira inconsciente, a transcendência. Sei que, em última instância, ele quer se ver livre das limitações do eu.
Vocês perguntarão como consigo ser tão taxativo nessa afirmação. Todo mundo busca a transcendência? Sim. Estamos todos buscando, cada um à sua maneira, de acordo com seu nível de consciência, tornar-se pleno. Se busco dinheiro, estou atrás de plenitude - afinal, dinheiro para quê? Se busco prazer, estou atrás de plenitude - afinal, prazer para quê? Se cumpro o meu dever, estou atrás de plenitude - afinal, cumprir o dever para quê? Se busco o amor, sem dúvida nenhuma estou atrás de plenitude - afinal o amor nos torna plenos.
Cuidado que devemos ganhar o nosso sustento, gozar com as coisas boas da vida e cumprir o nosso dever, mas não tendo essas coisas como meta última da vida, pois isso será uma busca sem fim, inalcançável.
Para todas essas buscas poderíamos nos perguntar 'para quê'? Todas elas desembocarão em última instância na plenitude e nenhuma delas se justifica por si mesma. Somente a plenitude é auto-justificável. Quero ser pleno porque quero ser pleno. Aliás, sou pleno simplesmente. Melhor ainda, sou.
Certamente não é isso que vemos no mundo. As pessoas buscam dinheiro, por exemplo, pelo dinheiro. Quanto mais dinheiro melhor. Vide as grandes fortunas. Só que elas não sabem da causa última. Por isso ficam nessa busca sem fim. Porque realmente não tem fim. Nem a busca por dinheiro, nem por prazer nem por dever tem um fim. Somente a plenitude apazigua
definitivamente o nosso espírito. Somos famintos de plenitude.
Dakshina Tantra, através da energização dos chakras e do conseqüente equilíbrio da personalidade, permitirá que o limitado se transcenda no ilimitado, assim como o rio se dissolve no oceano. Não somos nem este corpo nem esta mente nem estes pensamentos. Somos a fonte de onde vêm o corpo, a mente e os pensamentos - e para onde eles retornarão.
Transcendência é desejo e movimento. Se não sei o que quero, se sinto somente a insatisfação no peito, se o desejo ainda é inconsciente, ainda assim é transcendente. Se estou em movimento atrás de algo que não sei o que é, ainda assim o movimento é transcendente.
O humano é o único ser que quer ser diferente do que é. Em realidade isso é impossível. A transcendência é uma ilusão. Não podemos modificar nossa natureza. Um pote de barro pode modificar a sua forma de pote, mas jamais conseguirá ser outra coisa que não barro. Uma onda no oceano pode querer ser maior ou menor, mas nunca deixará de ser oceano.
Em realidade somos transcendentes quando aceitamos que Oceano é a nossa natureza. Nada menos que o vasto e infinito Oceano.
por Alexandre Perlingeiro, professor de Yoga